Let it beatnik

maio 27, 2009

Assimétrico

Filed under: Uncategorized — João O. @ 5:15 am

Acabo de voltar da Argentina. Depois que a Julieta nasceu, voltar se tornou muito mais fácil, isso é verdade. Por isso, não tive angústia alguma em cruzar a aduaneira do Ezeiza. Porém, meu retorno não é de alma vazia, muito pelo contrário, vim do Plata com o espírito renovado. Só espero que meu consciente recupere com o tempo a releitura que fiz em solo platino.

Passei boa parte da minha vida ignorando o fato de ser sagitário. Mas hoje, olho para atrás e vejo que não havia outro sol para mim. Aprendi a tolerar as impossibilidades de sair por aí, navegando o meu corpo pelo rio mundano, quando ainda era do escoteiro – Grupo Aimoré, o 1º de Minas Gerais, em Juiz de Fora. Tive uma forte revelação no dia em que circulou pelo lugar um pedaço do muro de Berlim. Os grupos de escoteiro trabalham em um sistema de rede em que alguém mantém contato com alguém que regula alguma coisa que promove alguns eventos. Assim, o pedaço da história passou pela minha mão (ou pelos olhos, não me lembro totalmente se o toquei). A recordação que eu tenho é de um pedaço de concreto quebrado assimetricamente em um tom acinzentado, mas com uma camada de tinta, vermelha, azul, não sei. Era sim, uma espécie de picho, um naco de luta contra a barbarie. E nisso, me senti importante, presente no mundo, interligado, integrado, conectado e tudo isso mais.

Eu tinha uma viagem em que acreditava haver no céu um relatório preciso de todas as coisas. Saberia após a morte, todos os passos que dei em vida, quantos banhos tomei, quais foram as vezes em que escapei de um assalto, encontrei alguém por acaso. Assim, encostar a mão no muro de Berlim, tão falado no Fantástico de domingo, seria ter algo realmente importante em minha ficha celestial. Apesar de me tornar presente, sentia-me preso em uma torre. Olhava das grandes janelas de vidro e me imaginava em diálogo com um mundo que eu mesmo interpretava. Meus olhos miravam o infinito colorido do por-do-sol, enquanto minha mente maquinava grandes emoções mentais, vendo-me como um detetive, alguém que detinha o segredo. Eu mesmo não saberia dizer qual seria esse mistério. O importante era bancar o araponga e me aventurar pelas ruas da minha casa. Desta forma, através destes pensamentos fugidios, acabei me isolando do mundo concreto e passei a almejar grandes viagens internas. Romantizei minha existência em um existir solitário, silencioso aos olhos do outro, mas em um turbilhão interno, ora prazeroso, ora tedioso, ora paranóico.

Quando tinha 15, 16 passava o anoitecer deitado em minha cama. Meus irmãos brincavam ou assistiam as novelas, enquanto imaginava me deslocando pelos subterrâneos de Paris, indo ao Teatro dos Vampiros pela noite iluminada e infernal da cidade luz. Fiz isso mais tarde, já em outra fase, em São Paulo. E já pensei na Austrália, Romênia – adorei saber que lá falam uma língua latina que se parece na escrita com o português, Irlanda, África do Sul – queria até reencarnar por lá, Holanda e claro, Argentina e Uruguai, principalmente. No Brasil, queria fazer vestibular para todos os lugares, menos em Juiz de Fora. Todavia, aqui fiquei, passei mais alguns anos no país das fadas e completei até pós-graduação na mesma universidade. Tinha a impressão de viver em qualquer momento da minha vida, pelo menos dois anos no Rio. Isso já não é mais sentido. Pensei também em Curitiba, Porto Alegre, Recife, Campinas e lugar algum. Tive um acesso de certeza e quis experimentar se podia ir, simplesmente ir. Fui. Tentei, em verdade. Parei em uma estrada errada que não queriam parar. Acabou que consegui uma carona e voltei para Minas (já estava no Estado fluminense). Por coincidência, o motorista parou em um puteiro quase no fim de Juiz de Fora (ele passou por fora da cidade). Achei aquilo fantástico pois nunca havia frequentando esse tipo de lugar e logo quando busquei experenciar minha liberdade, parei no maior tipo de prisão que uma mulher pode sofrer. E lá estavam elas, as putas e os filhos das putas, brincando, pulando na água da nem um pouco convidativa piscina. O cara que me deu a oportunidade era um senhor duns 40 anos, negro, de boné e bigode. Seu “João”, meu semi-chará. Não sei o seu segundo nome, mas não acredito que seja Carlos. Na viagem para Belo Horizonte, ele me acordou, pagou uma vaca atolada e me arrumou um cartão para falar com um conhecido. Por sorte, o meu contato estava num shopping ali perto da rodovia. Passou rapidamente e me resgatou. Foi uma situação meio louca, pois era ele, seu irmão do meio e o mais novo, além da mãe divorciada. E agora eu, um amigo meio doido que reapareceu do nada, não falando coisa com coisa e pedindo asilo por uma noite. De manhã fui acordado com um tio ao telefone. Fui meio surreal pois nunca imaginaria essa possibilidade. Ele queria saber se o meu problema eram as drogas, se eu estava devendo a algum traficante. Quem derá se fosse simples como um problema de dinheiro. Estava ali por que queria saber se era possível ir, mas claro, queria atenção de alguém, alguém ausente, porém definitivamente importante em minha vida: meu pai. Liguei para o velho depois de ter um encontro místico em uma igreja que cheguei por acaso, guiado pelas forças intuitivas. Meu pranto rolou quando fui destruído pela sutileza e o amor carinhoso em sua voz e suas palavras. Prometeu que me ajudaria a partir ou para Portugal ou para Viçosa, mas para longe da minha vida em Juiz de Fora. É óbvio que aceitaria tudo naquele momento, queria resgatar seu filho de volta. E conseguiu. Para muitos, fugi por semanas, para mim, fui para voltar. Muitas histórias foram contadas sobre o ocorrido, cada uma com sua parcela de verossimilhança e deslealdade com os fatos. Graças a Deus minha conduta interna nunca se abalou. O que saiu do prumo foi a visão, talvez, dos outros sobre esse meu ato. Muitas portas foram batidas na minha cara. Todavia, outras se abriram com o passar do tempo. Graças a Deus.

Mais uma vez não fui para lugar nenhum. Com o passar dos anos, vi meu pai ir a Nova York, ele já havia ido ao Chile quando eu tinha apenas 10 dias. Vi meu irmão se mudando para o Canadá após a morte de papai, vi meus amigos partirem para o Chile de ônibus, minha namorada para a Espanha, depois minha esposa (a mesma), com nossa filha no ventre, para a Alemanha e de novo, para a Espanha. Vi ao vivo o ataque às Torres Gêmeas, o penta no Japão. Acompanhei com perplexidade as decisões norteamericanas de invadir o Iraque, a tensão na Venezuela, o Tsunami no índico. Nos últimos tempos, pude conhecer alguns estrangeiros. Quando criança eles pareciam coisas de outro universo. Até mesmo o paraguaiozinho que se mudou para a minha sala na 2ª série do primário parecia possuir uma aura especial. Tinha também o Carlos, um argentino que comprava sapatos do meu no Rio. Ah, e ainda teve um carnaval em que me enrosquei com uma chilena estranha (que não parecia ser de lá) e bêbada que me tentou beijar depois de acordar de um porre de vodka. E teve também a época em que tentava reconhecer as raízes genéticas e espirituais das pessoas pelas feições de seu rosto. Um conhecido, negro, meio mulato e de olhos puxados, acreditava ser a reencarnação de alguém vindo do japão medieval ou de outra horde do oriente. Eu mesmo, muitos me viam ora como turco, ora como argentino. De certa forma, com uma pitada de desdém, gosto de ter um rosto além do Brasil, mesmo sabendo que sou fisionomicamente muito brasileiro. Meu rosto é orgânico e redondo, como o dos brasileiros. Observem os outros, os argentinos por exemplo, suas feições são mais retas, mais simétricas e pontiagudas. É só nisso que nos diferenciamos, em nossas faces. Claro, sem contar o cabelo. Isso é demais. Tanto as mulheres comos os homens da argentina cultivam certa liberdade em seu visual capilar. Há um tratado cordial que permite cortes menos brasileiramente estéticos como os curtos na frente e cheios atrás, típicos dos portenhos. E não é só o cabelo, a barba e o bigode aparecem com muito mais recorrência do que por aqui. Os pelos na cara do brasileiro só são permitidos socialmente aos jovens, aos vagabundos e aos mais velhos. Aos jovens-adultos e adultos restam a cara limpa pela lâmina de dois cortes. Mas por que será? Me sinto muito pelado e desprovido de poder quando meu rosto está à limpa. É uma sensação desagradável, sinto-me gordo, inchado, feio.

Amanhã continuarei o meu relato lento. Assimétrico.

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